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A propaganda é a alma do negócio

“O espetáculo de escritores sendo usados para fazer publicidade de seus próprios livros, particularmente os escritores mais jovens, é deprimente e não funciona bem.” –J.M. Coetzee

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/sylviacolombo/977499-coetzee-em-buenos-aires.shtml

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Publicar ou perecer

Leio notícia veiculada pelo Publishnews com relato do 1º Ciclo de Palestras sobre os Futuros do Livro em que os expositores
foram críticos ao modelo atual da indústria editorial de forte controle do que é ou não publicado, e defenderam o self-publishing – publicação independente pelo próprio autor – como uma alternativa importante para a democratização do acesso à publicação.
Um editor americano convidado para o evento declarou:
Acho que o modelo em que os editores decidem o que os leitores devem ler é errado.
Já para um autor, brasileiro, o problema é que:
Não existe a promoção do autor nacional. O editor brasileiro quer ir para Frankfurt e encontrar o bilhete premiado.
Mas a afirmação mais bizarra, sem dúvida, coube ao responsável por uma editora de livros digitais:
Com um projeto paralelo de self-publishing, as editoras não precisam dizer não a nenhum autor.
Não é preciso trabalhar com livros para ficar um pouco perplexo com esses discursos.
Como diria Jack, vamos por partes.
O mundo editorial, hoje, precisa de MAIS editores, não de menos. O fato de que qualquer pessoa possa publicar um arquivo digital e chamá-lo de livro não transforma um amontoado de textos em um livro de verdade.
O fato do livro digital permitir uma publicação a um custo muito menor também não autoriza que um editor publique todo autor que bata na sua porta.
Infelizmente, a quantidade de textos ruins que uma editora recebe é muito grande.
Obviamente, nenhum “autor” pensa assim. Toda pessoa que escreve um texto e o envia para uma editora imagina que seu texto é a última bolacha do pacote.
Todos, sem exceção, ficam ofendidíssimos quando tem seus textos recusados, mas a verdade é simples: nem todo texto merece publicação.
Outra ilusão diz respeito ao suposto caráter democrático do livro digital.
Balela. E daí que o seu livro está disponível para download?
Quantos leitores você imagina que vai ter?
Basta olhar para os serviços de download de música em formato digital para logo percebermos que não é o fato do seu trabalho artístico estar disponível para venda/download sob a forma digital que o transforma em alguém que vive disso.
Ainda vivemos no mundo do jabaculê e não é a imateralidade do suporte que vai fazer com que as massas conheçam todos os artistas independentes não ligados às grandes editoras ou gravadoras.
E se o caso não é de sobreviver desses livros digitais, bem, de bons diletantes a terra está cheia.
Há muito mais coisas entre o livro digital e a pilha de livros na entrada da livraria do que imagina a nossa vã filosofia editorial.
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Se você não pagou, não é o cliente, é o produto

Se você não pagou por alguma coisa, você não é o cliente, é o produto à venda.

A frase, condensada no título deste post, é de um desenvolvedor Microsoft, Andrew Lewis. É claro que ele fala do ponto de vista do programador ligado ao modelo de negócios de uma das maiores empresas de software do mundo, mas à parte sua filiação, ela esconde um fundo de verdade que faz pensar.

Donde vem toda essa profusão de serviços gratuitos na internet senão de algum desejo inconfessável de extração de capital?

Liberais adoram citar seu guru, Milton Friedman, e a frase — que não é dele, mas foi utilizada como título de um de seus livros — “Não existe almoço grátis” para nos lembrar de que no capitalismo, sem dúvida, nada é de graça.

Mesmo assim, muitos insistem em se iludir que por conta de utilizarem a internet e muitos serviços eletrônicos — email, blog, twitter etc. — “de grátis”, estariam de alguma forma abrindo rachaduras na carapaça do capital.

Antes de se imaginar realizando tal tarefa — sou obrigado a dizer, tão nobre e mais do que necessária —, no entanto, talvez fosse melhor matutar se não estamos fazendo papel de bobos e sendo postos à venda sem nem nos darmos conta disso.

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Só por encomenda

E, às vezes, nem assim.

Quem visita as livrarias paulistanas, se depara com uma quantidade gigantesca de livros em cada loja. As livrarias estão abarrotadas de títulos e o fenômeno não é exclusivo da cidade de São Paulo e se repete país afora.

Apesar da enorme quantidade em exibição nas lojas, pode ser mais difícil do que se imagina comprar um livro.

Me dei conta disso ao tentar comprar um exemplar de O tempo redescoberto, volume que encerra a monumental obra de Marcel Proust, Em busca do tempo perdido.

Visitei a unidade da Saraiva da rua Barão de Itapetininga, a unidade da Loyola na mesma rua, a Martins Fontes da praça do Patriarca e a Saraiva da rua São Bento, a poucos metros dali.

Em nenhuma dessas quatro livrarias era possível encontrar o livro em questão.

Na última livraria visitada, a vendedora ofereceu-me o indefectível “Só por encomenda” (ouvido, aliás, mais duas vezes da boca de outros vendedores enquanto eu esperava a vendedora que me atendia confirmar o prazo de entrega do meu pedido).

Depois de registrar a encomenda no sistema, ela entrou em contato com o estoque central da Saraiva para confirmar a entrega do livro.

Nesse momento, descobriu que não seria possível entregá-lo em 24 horas como prometido pois os únicos lugares que efetivamente dispunham de um exemplar do livro estavam em outras praças.

Como eu precisava do livro com urgência para dá-lo de presente, não me restou outra opção a não ser abortar a missão.

Lições que tiro do episódio:

  • Os grandes estoques das livrarias brasileiras são irrelevantes
  • O consumidor brasileiro de livros está impedido de obter um dos poucos prazeres do ato de compra: instant gratification.
  • Os livreiros não sabem mais o que é um clássico

Como disse à solícita vendedora da Saraiva, depois não adianta reclamar da concorrência…

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Nada fica sem resposta

Quem costuma andar de metrô, já deve ter percebido que é cada vez mais comum vermos muita gente lendo nos vagões. Como não poderia deixar de ser, os livros mais lidos nesse ambiente são os de auto-ajuda e religiosos.

Tudo nesses livros é fácil, a começar pelo título. No caso do exemplar que vi, um dia desses, ao vir trabalhar, apesar da facilidade aparente, o título da vez escondia um drama filosófico que já tem uns bons dois mil e quinhentos anos.

A crença de que todas as nossas dúvidas podem ser respondidas e o desejo de alcançar um estado pleno de sabedoria persegue o homem há bastante tempo.

Como não poderia deixar de ser, o capitalismo editorial se serve dessa dúvida fundamental para inundar o mercado livreiro com títulos de cunho pseudo-filosófico e fácil digestão. Não por acaso, um dos comentários a respeito do livro da brasileira Elisa Masselli na página que o sítio da Livraria Cultura lhe dedica é que se trata de um livro que “lemos no máximo em três a quatro dias e quando terminamos sentimos saudades”.

Saudades, talvez, de confirmar, a cada virada de página, aquela crença lá de trás. Ora, todo o drama humano é justamente tomar consciência de que algumas perguntas não tem resposta.

O filão da auto-ajuda e dos livros espíritas é, pois, uma forma de evitar o contato com esse drama. O medo aqui, ao contrário daquele identificado pelo crítico Adriano Schwartz em uma resenha certeira a respeito dos livros “de mistério” como “medo de ficção”, parece ser o do “medo da realidade”.

Deparar-se com um real que não se deixa conhecer, que não se deixa dominar, é algo intolerável para aqueles que leem esse tipo de livro. Buscam, assim, confirmar as certezas moldadas pela ideologia que lhes formou.

Afora o engano e a auto-ilusão dessa posição, há também a bola fora de boa parte da cadeia livreira que comemora mais um título nas estatísticas do difícil mercado editorial brasileiro sem se tocar que esse tipo de leitura não leva ao desenvolvimento de leitores de verdade.

As certezas que dela advem matam o leitor no nascedouro.