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Sociedades de controle

É certo que entramos na era das sociedades de “controle”, que não são mais exatamente disciplinares. Foucault é, no mais das vezes, considerado como o pensador das sociedades da disciplina e de sua técnica principal, o confinamento (não somente o hospital e a prisão, mas a escola, a fábrica, o quartel). Mas, de fato, ele é um dos primeiros a dizer que estamos deixando para trás as sociedades disciplinares, que já não somos mais isso. Entramos na sociedade de controle, que não mais funciona por confinamento, mas por controle contínuo e comunicação instantânea. É evidente que não deixamos de falar de prisão, de escola, de hospital: essas instituições estão em crise. Mas se elas estão em crise, é precisamente nos combates de retaguarda. Vão surgindo, aos poucos, novos tipos de sanções, de educação, de assistência. Os hospitais abertos, as equipes de assistência atendendo a domicílio etc. apareceram já há muito tempo. Podemos prever que a educação será cada vez menos algo fechado, distinta do meio profissional também fechado, e que ambos desaparecerão em favor de uma terrível formação permanente, de um controle contínuo exercido sobre o operário-estudante ou sobre o profissional universitário. Queremos acreditar que se trata de uma reforma da escola, quando na verdade se trata de uma liquidação. Em um regime de controle nunca se destrói completamente qualquer coisa. Você mesmo [Toni Negri], há muito tempo, analisou uma mutação do trabalho na Itália, ocorrida com as formas de trabalho temporário, domiciliar, que depois se afirmaram (o mesmo ocorrendo com novas formas de circulação e de distribuição de produtos). A cada tipo de sociedade, evidentemente, podemos encontrar um tipo de máquina correspondente: máquinas simples ou dinâmicas para as sociedades de soberania, máquinas energéticas para as sociedades disciplinares, as cibernéticas e os computadores para as sociedades de controle. Mas as máquinas nada explicam. É necessário analisar os agenciamentos coletivos entre os quais as máquinas são apenas uma parte. Frente às possíveis formas de controle incessante, em praça pública, pode ocorrer que os mais duros confinamentos nos pareçam pertencer a um passado agradável e benevolente. Há muito com que se preocupar nas pesquisas sobre os “universos da comunicação”. É verdade que, antes mesmo das sociedades de controle terem se organizado plenamente, as formas de delinquência ou de resistência — dois casos distintos — já aparecem. Por exemplo, os casos de pirataria ou os vírus de computador, que substituirão as greves e o que chamávamos no século XIX de “sabotage”(1). Você pergunta se as sociedades de controle ou de comunicação não suscitarão formas de resistência capazes de dar novas chances a um comunismo concebido como “organização transversal de indivíduos livres”. Não sei, talvez. Mas isso não ocorrerá em função de as minorias poderem retomar a palavra. Talvez a palavra, a comunicação, esteja podre. Elas estão completamente impregnadas de dinheiro: não por acidente, mas por natureza. É necessário subverter a palavra. Criar sempre foi coisa diferente de comunicar. Importará, talvez, criar vacúolos de não-comunicação, interruptores, para escapar ao controle.

(1) Sabotagem era originalmente o ato pelo qual os operários colocavam o “sabot” (tamanco) nas máquinas, com o intuito de travá-las. (NT).

Gilles Deleuze, em entrevista a Toni Negri. In: O devir revolucionário e as criações políticas. Novos Estudos CEBRAP, nº 28, out. 1990. Tradução de João H. Costa Vargas. Publicada originalmente em Futur antérieur, nº 1, primavera de 1990.

O que espanta mais? O acerto do diagnóstico ou sua precocidade?