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Nada fica sem resposta

Quem costuma andar de metrô, já deve ter percebido que é cada vez mais comum vermos muita gente lendo nos vagões. Como não poderia deixar de ser, os livros mais lidos nesse ambiente são os de auto-ajuda e religiosos.

Tudo nesses livros é fácil, a começar pelo título. No caso do exemplar que vi, um dia desses, ao vir trabalhar, apesar da facilidade aparente, o título da vez escondia um drama filosófico que já tem uns bons dois mil e quinhentos anos.

A crença de que todas as nossas dúvidas podem ser respondidas e o desejo de alcançar um estado pleno de sabedoria persegue o homem há bastante tempo.

Como não poderia deixar de ser, o capitalismo editorial se serve dessa dúvida fundamental para inundar o mercado livreiro com títulos de cunho pseudo-filosófico e fácil digestão. Não por acaso, um dos comentários a respeito do livro da brasileira Elisa Masselli na página que o sítio da Livraria Cultura lhe dedica é que se trata de um livro que “lemos no máximo em três a quatro dias e quando terminamos sentimos saudades”.

Saudades, talvez, de confirmar, a cada virada de página, aquela crença lá de trás. Ora, todo o drama humano é justamente tomar consciência de que algumas perguntas não tem resposta.

O filão da auto-ajuda e dos livros espíritas é, pois, uma forma de evitar o contato com esse drama. O medo aqui, ao contrário daquele identificado pelo crítico Adriano Schwartz em uma resenha certeira a respeito dos livros “de mistério” como “medo de ficção”, parece ser o do “medo da realidade”.

Deparar-se com um real que não se deixa conhecer, que não se deixa dominar, é algo intolerável para aqueles que leem esse tipo de livro. Buscam, assim, confirmar as certezas moldadas pela ideologia que lhes formou.

Afora o engano e a auto-ilusão dessa posição, há também a bola fora de boa parte da cadeia livreira que comemora mais um título nas estatísticas do difícil mercado editorial brasileiro sem se tocar que esse tipo de leitura não leva ao desenvolvimento de leitores de verdade.

As certezas que dela advem matam o leitor no nascedouro.