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Publicar ou perecer

Leio notícia veiculada pelo Publishnews com relato do 1º Ciclo de Palestras sobre os Futuros do Livro em que os expositores
foram críticos ao modelo atual da indústria editorial de forte controle do que é ou não publicado, e defenderam o self-publishing – publicação independente pelo próprio autor – como uma alternativa importante para a democratização do acesso à publicação.
Um editor americano convidado para o evento declarou:
Acho que o modelo em que os editores decidem o que os leitores devem ler é errado.
Já para um autor, brasileiro, o problema é que:
Não existe a promoção do autor nacional. O editor brasileiro quer ir para Frankfurt e encontrar o bilhete premiado.
Mas a afirmação mais bizarra, sem dúvida, coube ao responsável por uma editora de livros digitais:
Com um projeto paralelo de self-publishing, as editoras não precisam dizer não a nenhum autor.
Não é preciso trabalhar com livros para ficar um pouco perplexo com esses discursos.
Como diria Jack, vamos por partes.
O mundo editorial, hoje, precisa de MAIS editores, não de menos. O fato de que qualquer pessoa possa publicar um arquivo digital e chamá-lo de livro não transforma um amontoado de textos em um livro de verdade.
O fato do livro digital permitir uma publicação a um custo muito menor também não autoriza que um editor publique todo autor que bata na sua porta.
Infelizmente, a quantidade de textos ruins que uma editora recebe é muito grande.
Obviamente, nenhum “autor” pensa assim. Toda pessoa que escreve um texto e o envia para uma editora imagina que seu texto é a última bolacha do pacote.
Todos, sem exceção, ficam ofendidíssimos quando tem seus textos recusados, mas a verdade é simples: nem todo texto merece publicação.
Outra ilusão diz respeito ao suposto caráter democrático do livro digital.
Balela. E daí que o seu livro está disponível para download?
Quantos leitores você imagina que vai ter?
Basta olhar para os serviços de download de música em formato digital para logo percebermos que não é o fato do seu trabalho artístico estar disponível para venda/download sob a forma digital que o transforma em alguém que vive disso.
Ainda vivemos no mundo do jabaculê e não é a imateralidade do suporte que vai fazer com que as massas conheçam todos os artistas independentes não ligados às grandes editoras ou gravadoras.
E se o caso não é de sobreviver desses livros digitais, bem, de bons diletantes a terra está cheia.
Há muito mais coisas entre o livro digital e a pilha de livros na entrada da livraria do que imagina a nossa vã filosofia editorial.