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John Holmstrom e o zine “Punk”

PunkMagazine
Caso vocês tenham perdido a MRR Nº 311, aqui está…
Uma visita ao editor de “Punk” ou, Como um Fanzine Mudou o Mundo

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por Aaron Cometbus

As notícias correram pelos canais do punk: uma edição da MRR com o tema da mídia impressa! Que melhor oportunidade para sentar com o pioneiro do punk, John Holmstrom em pessoa? Eu admirava seu trabalho desde quando era um molequinho, e eu tinha uma longa lista de perguntas que sempre fui louco para fazer. Ele concordou com a ideia, e topou me encontrar em um restaurante ali próximo — na verdade, o mesmo restaurante onde aconteceu a fatídica reunião em que Henry [Rollins] entrou para o Black Flag. Eu esperava que esse encontro fosse ter um final mais feliz.
Porém, um grupo de ucranianos se sentou para uma comemoração pós-casamento em uma mesa ao lado, assim que começamos a conversar. Como resultado, minha gravação serve como um melhor registro da conversa deles do que da nossa. Assim, com as citações diretas que pude salvar, a história prosseguirá com minhas próprias palavras.
Holmstrom veio de Connecticut para a cidade de Nova Iorque em 1972, para aprender a desenhar quadrinhos. Ele se inscreveu na School for Visual Arts [escola de artes visuais], mas se decepcionou ao descobrir que não existia uma única disciplina para cartunistas. Junto com outros alunos enraivecidos, ele se dirigiu ao presidente da escola. “Claro, quais cartunistas vocês querem?” – o presidente perguntou – “Façam uma lista.”
Então eles fizeram — uma lista-fantasia com lendas dos quadrinhos. No topo da lista estavam Will Eisner (o rebelde dos quadrinhos que havia criado “Spirit” em 1940, e, famosamente, se recusara a publicar a primeira edição de “Super-Homem”) e Harvey Kurtzman (o fundador da revista “Mad” original). A administração surpreendeu os alunos ao contratar ambos.
Estudar com Eisner e Kurtzman foi a porta de entrada de Holmstrom para o mundo dos quadrinhos e da editoração. Suas aulas, e sua confiança nele, afetaram muito o destino de sua vida. Mesmo depois que ele não pôde mais pagar as altas taxas da SVA e fora obrigado a abandonar o curso, Holmstrom continuou como aprendiz deles, literalmente e de modo figurativo: ambos Eisner e Kurtzman o contrataram como assistente pessoal. O trabalho era de meio período e pagava salário mínimo, mas era tudo o que ele precisava para se virar. Mais importante, isso deu ao artista uma oportunidade para aperfeiçoar suas habilidades…

A primeira publicação de Holmstrom foi “Domeland”, uma revista em quadrinhos educativa lançada pela Charas — que mais tarde se tornaria uma organização ativista porto-riquenha com um enorme “squat” na Avenue B, mas à época era um grupo menos político que operava em um terreno de 0,4 hectare na Cherry Street (arrendado por quinze dólares ao mês), onde eles construíram cúpulas geodésicas. Para a Charas, essas estruturas eram o abrigo perfeito: indestrutíveis, aerodinâmicas, acessíveis, e ambientalmente saudáveis. Charas (e a “Domeland”) as promoveram como uma resposta a muitas aflições habitacionais do mundo, e todos eles se prepararam para ir à Índia para demonstração, com Holmstrom a tiracolo. Aí, algum membro do governo indiano pesquisou o nome do grupo em um dicionário de espanhol-inglês, e o acordo foi cancelado. Ao invés disso, as cúpulas foram construídas no Sul do Bronx, onde bastou aos jovens criativos apenas dois ou três dias para explodi-las.
Holmstrom ficou constrangido pela Domeland, como qualquer pessoa ficaria por sua obra mais antiga, e ele deixou de guardar pelo menos uma cópia original. Seu lançamento seguinte, uma ilustração para a capa da revista “Screw” (uma mulher pondo ketchup em um pênis dilacerado em um pão de cachorro-quente) constrangiu todo mundo. Mas ele estava adquirindo experiência e tinha outros trabalhos paralelos, fazendo anúncios. Kurtzman, que havia conseguido a capa da “Screw” para Holmstrom, convenceu-o a pegar um trabalho de freelance na Scholastic, desenhando uma tira mensal para sua revista “Bananas”, direcionada para alunos de sétima e oitava séries. “Era um ótimo trabalho,” Holmstrom se lembra. “Trezentos dólares por tira, e naquela época, você podia alugar um apartamento em Nova Iorque por cem dólares por mês.”
Ele nem sempre teve a intenção de lançar sua própria revista. Ao invés disso, ela foi um feliz acidente. Kurtzman havia lhe arrumado mais um trabalho, esse como editor de uma enorme e ambiciosa revista de humor chamada “National Harpoon”, uma sátira da “National Lampoon”. Holmstrom foi contratado, e somente descobriu que os financiadores da “Harpoon” não tencionavam publicá-la; o plano deles era que ela fosse adquirida pela “National Lampoon” antes mesmo de ser lançada. Mas essa decepção se transformou em inspiração, acionando os sininhos de alarme na mente de Holmstrom. “Minha mente começou me dizendo o que eu poderia fazer com uma revista de circulação nacional,” ele diz.
Auxiliar Kurtzman nunca tinha sido um emprego fixo, e Will Eisner fechava seu escritório todo verão, por isso Holmstrom ficava sem seu emprego diário. Ele estava inquieto. Ele topou com Eddie McNiel, um velho amigo do ginásio com quem havia fundado um grupo de comédia. McNiel havia se firmado com a equipe enquanto que Holmstrom tomou outros rumos, mas se encheu daquilo e também estava inquieto. McNiel convidou Holmstrom a se juntar a ele em seu retorno à sua cidade natal durante o verão para um trabalho de pintura iniciado por outro velho amigo, Ged. Já reunidos em Connecticut, os três se deram tão bem que Ged sugeriu que eles unissem suas forças e montassem uma empresa — de editoração e não de pintura. E foi assim que, naquele verão de 1975, no apartamento de Ged, na cidade de Cheshire, a revista “Punk” (e talvez o próprio punk) nasceu.
Terminado o verão, Holmstrom retornou ao escritório de Eisner. McNiel, que a partir de então ficara conhecido por seu apelido de Legs — estava fazendo filmes pornôs na Total Impact, uma cooperativa hippie de filmes na esquina da Second Avenue com a 14, que dividia escritório com futuros astros do cinema como Victor Colicchio (”O Verão de Sam” – roteirista e ator) e Mary Harron (”Eu Matei Andy Warhol”, “Psicopata Americano” – diretora). Os cinéfilos talvez queiram, ou não, ir atrás de um filme em que todos os três trabalharam juntos: um pornô chamado “Blow Dry” [da produtora americana Vivid – NT].
Ged voltou para a escola para colar grau, mas ligou alguns meses depois: “Ah, estou entediado na escola, odeio isso aqui. Vamos fundar a companhia agora.”
Maravilha!
Holmstrom saiu atrás de um novo escritório, mas nada parecia adequado ou perto de onde eles queriam. Como já tinha recebido um aviso de 30 dias para deixar seu apartamento, e com o prazo perto de vencer, Holmstrom estava nervoso. Então um agente imobiliário o colocou numa terra-de-ninguém entre Hell’s Kitchen [bairro da ilha de Manhattan – NT], a estrada de ferro e a entrada do Túnel Lincoln. Os trilhos de trem abandonados passavam por cima, e ratos do tamanho de gatos andavam pela docas no fim do quarteirão. O prédio para alugar — um enorme armazém, com um escritório completo já montado — estava estranhamente abandonado como se os inquilinos anteriores tivessem desaparecido sem deixar vestígios. Ainda havia blusas deixadas nos encostos das cadeiras, e canecas com restos de café sobre as mesas. “Podemos nos livrar de todo esse lixo,” o agente imobiliário disse.
“Não, não! Está perfeito!” disse Holmstrom. “Vamos ficar com ele.”
Holmstrom e Legs arranjaram os duzentos mangos necessários para garantir o escritório, e Ged chegou algumas semanas mais tarde. A banda The Dictators fora escolhida para a capa da edição de estréia, mas uma ligação rápida para a gravadora Epic Records informou que ela havia terminado há pouco tempo. “Vamos ver os Ramones e fazer uma matéria com eles,” sugeriu Holmstrom. Com um gravador de rolo e alguém da Total Impact para tirar as fotos, eles se dirigiram ao clube CBGB’s no domingo após o Dia de Ação de Graças. Depois de entrevistar os Ramones, por acaso Lou Reed estava na platéia, e ele aceitou a contragosto falar com eles também, o que resultou em uma das entrevistas mais incisivas e hilárias já publicadas. Toda a revista ficou pronta bem rápido; um pouco de paste-up e ela foi entregue na gráfica (do mesmo cara que havia impresso a “Domeland”) no Natal. Na véspera do Ano Novo, Holmstrom deu uma passada por lá para ver como andavam as coisas, e ao ver o gráfico dando um duro danado, ele arregaçou as mangas para ajudá-lo.
No dia 1º de janeiro de 1976, a edição de “Punk” #1 chegou às bancas. O CB’s ficava a apenas dois quarteirões da gráfica, por isso Legs e Holmstrom puderam entregar sua criação diretamente em mãos.
“Punk” se destacou logo de cara das outras revistas da época. Visualmente, ela era impressionante, com elementos gráficos audaciosos, desenhos obscenos, e narrativas foto-cômicas inspiradas pelos “foto-quadrinhos” franceses dos anos quarenta que Kurtzman havia trazido para a sala de aula. Ao invés de carregar nos textos, Holmstrom empregou uma atitude de “menos é mais”, expressando suas ideias com muito poucas palavras. Em parte, ele dá crédito ao Minimalismo: “Os músicos não freqüentavam galerias de arte, mas todos estavam cientes do cenário artístico de Nova Iorque da época, e muitas das melhores bandas estavam tentando apresentar uma nova forma visual, assim como um novo formato musical. Eu queria que a “Punk” também fosse assim.”
Ao invés de se concentrar em notícias e temas atuais como os remanescentes jornais underground dos anos sessenta, “Punk” cobria a cultura do rock and roll, e fazia isso com uma atitude arrogante e agressiva. Ela era intencionalmente chocante, da maneira que o rock and roll havia sido antes, quando os DJs quebravam os discos no ar e os sub-comitês do Senado ligavam as revistas em quadrinhos e o rock and roll com a delinquência juvenil. Holmstrom queria trazer de volta essa conexão e aceitá-la — não apenas a energia chocante, mas a combinação do rock and roll com os quadrinhos, duas formas de arte que haviam crescido lado a lado. “Havia essa grande música emanando do CBGB’s,” ele diz, “e eu sabia que o rock and roll estava tomando um certo rumo. Eu queria lançar uma revista que fosse uma espécie de combinação dos jornais underground dos anos sessenta com uma revista em quadrinhos. Nós queríamos ser a revista “Mad” do rock and roll.”
Então, o novo jornalzinho que comemorou o bicentenário era uma síntese de muitas fontes improváveis: revistas de filmes franceses dos anos quarenta, o rock and roll dos anos cinquenta, e a imprensa underground dos anos sessenta. Revistas em quadrinhos (tanto underground quanto popular) e a revista “Mad” original, produzida por Kurtzman (e não a versão posterior, densamente formatada). A sujeira e a rusticidade de Nova Iorque nos anos sessenta, assim como as ideias da escola de arte sobre o Minimalismo. Mas o que realmente deu destaque ao zine “Punk”, o que fez dele não apenas uma revista pioneira mas a centelha que acendeu a chama que permanece tão próxima de muitos dos nossos corações — aquilo foi algo diferente. Em grande parte, foi por culpa de Legs. Ele sempre quis ser um relações públicas. “Olhe,” ele dizia, “se quiser que uma ideia tenha sucesso, você tem que fazê-la maior do que a revista. Nós vamos iniciar um “movimento punk.” Ele pegou um cenário bastante pequeno de um ponto de encontro dos Hell’s Angels na Bowery e lhe deu enormes dimensões. “Eu vou me tornar um punk,” Legs declarou, assumindo o papel de garoto-modelo e arquétipo para o novo movimento, o que mudou pouca coisa durante todos esses anos desde então.
É claro, ele era risível, sem falar que era megalomaníaco. Mas deu certo. Em Nova Iorque, qualquer pessoa podia ir ao CBGB’s, ver que esse “movimento” consistia de três ou quatro bandas e um punhado de seus amigos, e depois desconsiderá-lo logo a seguir. Nem tanto na Inglaterra, onde, através de distribuidores, “Punk” #1 chegou aos leitores que levaram a fantasia de Legs ao pé da letra. O grupo Blondie retornou de sua primeira turnê européia com relatos de jovens de Londres vestindo-se como Legs, imitando cenas das páginas de “Punk” #1 e chamando a si mesmos de “punks”. Eles assimilaram aquilo completamente, só que uma coisa estava faltando: a música. Os jovens estavam morrendo de curiosidade, perguntando, “Como é o som desse tal de punk rock?” Em janeiro de 1976, ainda não existia nenhum disco de punk. A primeira turnê britânica dos Ramones, famosa por ter supostamente lançado a primeira onda do punk britânico, ainda levaria seis meses para acontecer. De acordo com Rat Scabies, do grupo The Damned, os jovens de Londres formaram suas próprias bandas depois de olhar as fotos das páginas de “Punk” e tentavam adivinhar como era aquela música. Mesmo quando eles erravam, acabavam fazendo certo.
O lançamento do primeiro LP dos Ramones aconteceu, em parte, como resultado da primeira edição de “Punk”. “Nós arrumamos o primeiro contrato deles,” afirma Holmstrom. “Nossa primeira matéria sobre os Ramones convenceu Seymour Stein, da Sire Records, que ele tinha que contratá-los e fazer deles o primeiro sucesso saído do CBGB’s.” A imagem ícone da capa [do disco] surgiu de uma sessão fotográfica de “Punk”, tirada pela porteira do CB’s Roberta Bayley, em uma de suas primeiras tentativas de usar uma câmera. Quanto à localização exata da foto, continua sendo um mistério. Legs e Arturo Vega (o diretor de arte dos Ramones) afirmam que ela fora feita no jardim comunitário da 2nd Street entre a First e a Second. Holmstrom se lembra de ter acontecido em outro lugar, mas onde, ele não faz ideia, e a própria Bayley também se esqueceu. (A foto do terceiro álbum foi tirada no beco atrás do CBGB’s — pelo menos disso nós temos certeza).
Então, “Punk” #1 foi um sucesso instantâneo em todos os aspectos. Os pedidos de assinatura começaram a surgir em poucos dias. O jornal Village Voice denominou Punk “o espírito de uma nova geração”.
“Esse foi o nosso auge,” Holmstrom suspira. “A partir dali, foi ladeira abaixo. Tudo desandou.”
O problema foi uma questão de perspectiva: o que parecia um sucesso para os leitores de “Punk” foi um fracasso completo aos olhos de seus criadores, cujas expectativas eram muito, muito altas. Eles esperavam ficar ricos, ou pelo menos obter ganhos decentes por seus esforços. Ao invés disso, meses se passaram, e Holmstrom, Legs e Ged ainda estavam rachando as despesas e trabalho no armazém da Tenth Avenue — agora conhecido como Punk Dump [lixão punk] — ralando mensalmente e apenas pagando as contas. Acrescente-se a isso os velhos problemas de editoras: distribuidores que não pagam, gráficas que sempre atrasam, anunciantes que abandonam o barco se a revista não consegue sair no prazo. Era difícil conciliar o fato de que a “Punk” estava recebendo enorme divulgação e a revista era uma sensação internacional, no entanto parecia ser mais difícil de produzi-la.

Suas visiões de grandeza eram talvez irreais, mas não sem precedentes. Afinal de contas, o punk rock parecia estar pronto para se tornar a Nova Grande Sensação, e eles estavam na crista da onda. Holmstrom explica: “Eu achava que os Ramones seriam maior do que os Beatles. Eu tinha visto exemplos como Alice Cooper, que passou da banda de rock mais odiada em Los Angeles ao topo das paradas de sucesso. Aquela parecia ser a fórmula para o sucesso no rock and roll. Todo mundo odiava Jimi Hendrix quando ele apareceu pela primeira vez — ele fora expulso da turnê dos Monkees pelas Filhas da Revolução Americana — e depois se tornou o maior astro do universo. As pessoas odiaram os Beatles quando eles surgiram, elas odiavam os Rolling Stones. Tudo no rock and roll tinha aquele espírito rebelde que as pessoas tentavam deter e odiavam. Aí eu pensei, ‘Ei, elas odeiam isso! Nós vamos ficar ricos! Estamos no lugar que queríamos.’ Porque, na verdade, estávamos apenas seguindo a fórmula do sucesso. Exceto que, ironicamente, quando se tratava de punk, a fórmula deixou de funcionar.”
O que conta mesmo é que eles estavam duros. Apesar dos delírios de fama e fortuna, o verdadeiro objetivo era ganhar o suficiente para comer. Por sorte, Holmstrom ainda tinha seu emprego paralelo de freelance para a “Bananas” e outras revistas, e aquilo lhe proporcionava o suficiente para ir levando. Em retrospecto, ele percebe que a revista deveria ter sido financiada por seu trabalho de freelance e seguir em frente sem pensar nas conseqüências. Mas, no verão de 1976, as coisas pareciam sombrias. Sua última edição — Punk #5 — foi deplorável, rejeitada pelos leitores e pela equipe toda. Com os poucos recursos ou esperanças que lhes restaram, eles decidiram abandoná-la.
E esse teria sido o fim da nossa história, se não fosse pela entrada, um certo dia, de um visitante inesperado. Holmstrom estava sentado deprimido no Dump, quando um homem entrou e chutou seus pés de cima da mesa. “Eu os tornarei ricos e famosos,” ele disse, pontuando sua afirmação com uma nota de cem dólares novinha para cada um dos membros da equipe. Depois, ele se despediu: “Entrarei em contato.”
Esse homem era Tom Forcade, já uma lenda na história das editoras underground, embora nossos perplexos rapazes ainda não soubessem daquilo.
A vida de Forcade merece um artigo à parte, se não um romance inteiro. Começando nos anos sessenta, com um traficante pé-rapado do Arizona que aprendera a voar, fazendo suas próprias viagens cruzando a fronteira para o México e a Colômbia a fim de eliminar o intermediário; logo ele ganhou uma pequena fortuna. Editando uma revista underground, “Orpheum”, levou ao envolvimento com a Underground Press Syndicate, composta de meia dúzia de jornais que tinham um acordo de reeditar livremente os trabalhos uns dos outros. Sob a supervisão de Forcade, e graças à sua habilidade organizacional, aquilo se transformou em uma usina com 200 membros no mundo todo. A seguir, ele arranjou um acordo com a empresa de microfilmes Bell & Howell, a fim de preservar para a posteridade todos os jornais dos anos sessenta, grandes e pequenos, e ao mesmo tempo fornecia a eles fundos para continuarem mais alguns anos. Intimado por um sub-comitê do congresso numa investigação de pornografia, ele introduziu o lançamento da torta como uma forma de protesto político. Revoltado com o controle corporativo do rock and roll, ele fundou a Rock Liberation Front, batendo de frente com a gravadora Warner Brothers pela tentativa dessa de cooptar o festival Woodstock, e confrontou Phil Spector por esse ter embolsado os lucros das vendas do álbum beneficente para Bangladesh. Forcade estava em toda parte ao mesmo tempo, inclusive na convenção Republicana de 1972, onde a polícia — ao encontrar bombas de fumaça em seu furgão — o acusou de tramar o assassinato de Richard Nixon. Ele foi forçado a ir para o anonimato — e foi quando sua maior epifania ocorreu: por que não lançar uma revista para popularizar a cultura underground? Um ano mais tarde, sua ideia virou realidade, e a revista, “High Times”, estava vendendo um milhão de cópias por mês. Dois anos depois, ele entrou para a “Punk”.
Forcade foi um milagre, exatamente o que Holmstrom & cia. precisavam desesperadamente: um benfeitor para dar nova vida ao sonho deles — um sonho com experiência sem igual em distribuição e editoração. Pareceu a combinação perfeita.
“Punk” #6 veio a seguir, publicada sob os auspícios da “High Times”. Foi sua primeira foto-revista em quadrinhos em tamanho padrão, um filme em papel chamado The Legend of Nick Detroit, com Richard Hell no papel principal e David Johansen, Debbie Harry e Talking Heads, entre outros, dando apoio. O elenco estelar foi tão acidental quanto os foto-quadrinhos que Kurtzman havia feito no início dos anos sessenta, com Gloria Steinem, Terry Gilliam e John Cleese (ambos mais tarde no Monty Python), R. Crumb, e até mesmo Woody Allen. Para Kurtzman, como Holmstrom quinze anos mais tarde, aquelas eram as pessoas que circulavam por seu escritório na época.
Nick Detroit foi uma experiência inovadora e empolgante. E um fracasso completo. Sem cerimônia, Forcade largou a “Punk” como uma batata quente — todavia, mais tarde ele estaria de volta. Por enquanto, era a volta à estaca zero.
A história de Holmstrom está repleta de começos em falso e simples má sorte, mas também de uma surpreendente dose de salvação de última hora. Mais uma vez, um misterioso investidor apareceu, esse vindo de Detroit, atraído por todos os pôsteres de “Nick Detroit” espalhados por toda a cidade. Ele injetou vinte mil na revista quase moribunda, e logo as impressoras começaram a rodar novamente, com algumas das melhores edições de “Punk”. A edição nº8 trazia uma matéria de capa sobre os Sex Pistols, em uma época que pouca gente havia ouvido falar da banda nos EUA. Diferentemente de Legs, que considerava o cenário de Londres uma pálida imitação, Holmstrom ficou empolgado pela nova energia. “Eles aperfeiçoaram a nossa fórmula,” ele diz. “Quando escutei o disco dos Sex Pistols pela primeira vez, eu fiquei impressionado. Não, eu nunca fui competitivo a esse respeito. Isso era coisa de Legs. Ele não compreendia que seria bom se o punk rock acontecesse em outra cidade e de outra maneira.”
De modo similar, Holmstrom deu uma força aos fanzines que seguiram os passos da “Punk” (“contanto que eles não pensassem que eram melhores do que nós,” ele diz). A primeira edição de “Sniffin’ Glue” chegou pelo correio no verão de 1976, com uma carta do fã e editor Mark P. “Então, de repente,” diz Holmstrom, “na terceira edição, houve uma mudança. Aí eu recebia cartas do tipo, ‘Ah, vocês americanos ficaram ricos, e vocês não prestam. Nós vivemos de salário-desemprego. Vocês não sabem o que é sofrimento.’ Que monte de bobagens! Lá estava eu, comendo fígado de frango e um jovem do lado vem nos falar merda.” Mesmo assim, admite a excelência de “Sniffin’ Glue” (e, na verdade, ela era até melhor do que a “Punk”) mas prefere sua esquecida contemporânea de Londres, “Ripped & Torn”. A torrente de zines ingleses foi viabilizada pela Rough Trade, que pegou os lucros da importação de cópias da “Punk” e comprou um mimeógrafo para que todos os jovens o usassem e fizessem seus próprios zines. “Eles não precisavam mais de nós,” lamenta o editor da “Punk”, soando orgulhoso e triste.
Quanto a Legs, seu envolvimento em “Punk” — embora crucial em seu início — foi na verdade um tanto limitado, e de acordo com Holmstrom: “Ele contribuiu um pouquinho na primeira, depois caiu fora na segunda edição. Aí ele e Ged tiveram uma grande briga, caíram no chão aos socos, tentando se matar, e ele foi demitido.” Legs retornou, mas usou a cama de Ged — e uma garrafa de xarope de melado — em uma transa a três. Aquilo foi o fim da picada.
Restaram dois co-fundadores, e logo eles se envolveram em seu próprio conflito. “Punk” #9 estava pronta para ser impressa — na opinião de Holmstrom, a melhor edição até o momento, com The Damned, uma entrevista em quadrinhos com o Kiss, e uma prévia da obra “Junkie”, de William S. Burroughs — quando Ged anunciou que essa edição seria a última; não havia mais dinheiro. Os duzendos mil haviam acabado, foram desperdiçados em más decisões administrativas e no papel luxo que Ged havia escolhido. O resto da equipe estava justificadamente irada. “Aquilo foi como assassinar o imperador Julio César,” diz Holmstrom. “Nós acabamos despedindo-o pouco antes da revista voltar da gráfica.”
Ged decidiu se vingar. Ele foi até a gráfica e disse a eles que a “Punk” não tinha o suficiente no banco para pagar a conta, o que, afinal de contas, era verdade. Holmstrom teve que pedir dinheiro emprestado pessoalmente para tirar a revista do prego. Então a gráfica, tendo sido finalmente paga integralmente, foi à falência. Holmstrom jamais recuperou as revistas, nem a grana; nem mesmo os originais, que incluiam fotos inéditas de Burroughs e [Allen] Ginsberg curtindo numa praia do México.
Aquilo não foi apenas um desastre em todos os sentidos — inclusive na amizade — mas a “Punk” agora estava endividada. Alguém sugeriu que se fizesse um concerto beneficente, e um final de semana inteiro de shows no CB’s foi rapidamente arranjado. Blondie, Dead Boys, the Cramps, e Patti Smith, todos tocaram. Ross the Boss, do The Dictators, subiu ao palco para um improviso, e também Fred Smith, que havia trocado o Blondie pelo Television, confiante de que eles seriam uma banda mais bem sucedida. Foi quando estava ocorrendo uma mudança radical no CB’s: Blondie e os Ramones — os quais haviam sido considerados uma piada — estavam se tornando imensamente populares, enquanto que os grupos mais sofisticados e fadados ao sucesso foram facilmente ultrapassados. O contrato do Blondie na pequena gravadora Private Stock fora comprado pela Chrysalis. O selo dos Ramones, Sire — à época ainda uma pequena gravadora independente — fora comprado pela Warner Brothers.

O Punk Rock agora era um grande negócio. A revista “Punk” ainda era um fracasso total. Como sempre, os aspectos musicais do cenário recebiam apoio e elogios, enquanto que a mídia impressa que formara sua base cultural (e ajudou a promover as bandas) levou a pior. Aquilo estabeleceu o tom do que estava por vir, três décadas de grandes fanzines se transformando na sua maioria em gravadoras medíocres (Slash, Touch & Go, Sub Pop, Lookout, No Idea) e editores de fanzines que ganharam renome através de suas bandas posteriores (Kevin Seconds, Thurston Moore, King Vitamin, do Butthole Surfers, Dave Grubbs, do Slint). Qualquer pessoa que já teve um fanzine e uma banda sabe que fazer música sempre compensa mais, e — matem-me por dizer isso, mas é verdade — dá menos trabalho.
De qualquer forma, Holmstrom estava lucrando de novo depois do show beneficente, e de volta ao batente. Todavia, às edições seguintes estavam faltando um pouco de ousadia; alguém havia tirado as garras da “Punk”. A revista refletia o que os Ramones estavam passando na época — um processo de simplificação e redução ao básico, em combinação com os crescentes valores de produção e uma queda para a popularidade. Rocket to Russia e Road to Ruin certamente eram grandes álbuns (e as duas capas que Holmstrom desenhou lhe renderam o suficiente para adquirir seu próprio apartamento e se mudar do Dump). Também eram as edições correspondentes da “Punk”. Mas, atingir o âmago da questão significou se tornar um tanto inofensivo e estereotipado no processo (e depois o acréscimo de fotos coloridas não ajudou a banda nem a revista). Para desenvolver a analogia, foi somente bem depois de Too Tough to Die que os Ramones finalmente recobraram o espírito que os havia tornado tão especiais, e eles o fizeram não na redução, mas expandindo-se, surpreendendo a todos ao incorporar o hardcore ao som que era sua marca registrada — em essência, tirando o fruto da árvore que eles haviam plantado no início. A versão que a “Punk” fez de Too Tough to Die foi “Mutant Monster Beach Party”, uma foto-revista em quadrinhos estrelando Joey Ramone, e ela também fora lançada depois de um período de andar sem rumo pelo mundo. Porém, “Mutant Monster Beach Party” foi uma verdadeira obra-prima: uma incrível mistura de música, fotos, illustrações de quadrinhos, e uma trama maluca sobre delinqüentes juvenis — um clímax de todos os elementos divergentes da “Punk” unindo-se em perfeita harmonia. A edição foi, claro, outro fracasso total, mas se você medir as vendas somente pelo sucesso, manter uma fórmula previsível é a melhor coisa.
Nesse meio tempo, Forcade havia voltado à cena. Não somente ele concordara em voltar a publicar “Punk”, ele recrutou Holmstrom para seu projeto favorito: um filme underground documentando a turnê dos Sex Pistols que estava para começar nos EUA. Forcade tinha ideias ambiciosas sobre o filme — lucro certo de um milhão de dólares — além do livro que Holmstrom iria produzir (e uma edição especial de “Punk”). O principal de tudo, ele queria se vingar de sua velha inimiga, a gravadora Warner Brothers, a sanguessuga corporativa, que estava comandando a turnê. E então, eles partiram com uma equipe para filmar a banda à medida em que eles rasgavam através das entranhas da América, deixando um rastro de destruição para trás. Mas o filme não aconteceu como Forcade havia previsto. A Warner Brothers o lembrou muito bem; eles não iriam tolerar o lance de atirar tortas, aquele insano confrontando Phil Spector, e fizeram de tudo que puderam para evitar que seu filme fosse feito. Enquanto isso, de volta a sua sede, a equipe de Forcade estava revoltada, com medo que a “High Times” fosse falir por causa das centenas de milhares de dólares que saíam de sua conta para uma aventura ridícula. E os próprios Pistols, obviamente, fizeram uma zona total, finalmente se auto-destruindo em San Francisco, como todo mundo. Quando Holmstrom voltou a Nova Iorque, também Johnny e Sid, esse último chapadaço e levado ao hospital, o primeiro apagou no chão da casa de alguém, sem dinheiro suficiente para pagar a viagem de volta para casa.
Uma semana e meia infernal!
O filme de Forcade, “DOA”, acabou sendo mais uma baixa daquela turnê — demorou três anos e meio completos para ser lançado. Em apenas um item ele estava certo: o diário da turnê dos Sex Pistols que a revista Punk fez foi a edição que mais vendera até o momento.
Forcade havia prometido fazer da “Punk” tão bem sucedida quanto a “High Times”, e isso podia mesmo ter acontecido, não fosse pelo acordo de distribuição exclusiva que Forcade assinara com Larry Flynt, o famoso editor da revista Hustler. A tinta ainda estava fresca no contrato quando Flynt foi baleado. “Quando aquele puto atirou em Flynt, ele puxou nosso tapete,” Holmstrom diz, balançando a cabeça. “A High Times começou a receber pagamentos atrasados por sua distribuição. A companhia toda estava mergulhada no caos.”
“Ah, eu tenho um milhão delas. Um milhão de razões porque não fomos bem sucedidos, e essa é apenas uma.” Menos engraçado — e um tiro mais preciso — foi o suicídio de Forcade no fim daquele ano, que terminou com a existência da “Punk” de uma vez por todas.
Enumerar cada fracasso de “Punk” levaria a noite toda, e qualquer leitor dessa revista já tem seu próprio azar para remoer. Além disso, meu café estava esfriando, e a garçonete nos interrompeu depois de perceber que não iríamos pedir mais nada além de uma porção de pierogis [pastel polonês – NT] e um queijo grelhado. Piedosamente, ela nos deixou ficar; o local estava vazio agora que a turma da festa de casamento havia ido embora, e lá fora chovia torrencialmente.

A história de Holmstrom estava sempre no fim mas nunca acabava. Como a cena de mesmo nome, a “Punk” morreu outra vez e mais outra. Foi somente em 1981 que ela foi à lona. Ao todo, dezoito edições foram produzidas, três das quais jamais saíram (perdidas entre as garras da melhor amiga e pior inimiga de qualquer revista: a gráfica). Mas, ao invés de descansar — ou aprender sua lição — Holmstrom voltou imediatamente à batalha com uma nova publicação chamada “Comical Funnies”, uma colaboração com outros três cartunistas que tinham se envolvido no final da “Punk”: Bruce Carleton, Ken Weiner, e o então desconhecido e novato Peter Bagge. Holmstrom sentiu-se envigorado por trabalhar em um projeto completamente divorciado da indústria musical, e ele se lembra carinhosamente das festinhas — e da energia colaborativa — da Comical Funnies. Inevitavelmente, ela não poderia durar muito: Bagge e os outros estavam em vias de produzir suas próprias revistas em quadrinhos, enquanto que o antiquado editor de revistas em Holmstrom ansiava por um formato mais mesclado. Sua produção seguinte, uma revista mensal grátis chamada “Stop”, refletia isso. Um dos destaques foi o artigo de Holmstrom sobre a “Punxploitation” nos filmes de Hollywood; em uma época quando quase todos os antigos punks estavam escrevendo disparates e coisas desdenhosas sobre a nova geração e o significado do punk, ele foi mais profundo, articulado e generoso.
Já em 1983, “Stop” tinha acabado e a fonte dos trabalhos de freelance havia secado (a arte de Holmstrom para o Ramones acabou sendo um tiro que saiu pela culatra, fazendo de seu estilo um sinônimo da banda ao invés de atrair outros trabalhos). Por um emprego regular, ele retornou primeiro à Scholastic e depois à “High Times”, onde o novo editor conhecia os quadrinhos e lembrou-se de sua antiga sociedade com Forcade. Sua primeira tarefa: uma entrevista ilustrada com Eldridge Cleaver, pela qual o próprio Cleaver mais tarde escreveu para lhe agradecer (apesar de alguns golpes baixos, ela era honesta, o que ele reconheceu).
Holmstrom permaneceu na “High Times” a partir do final dos anos 80 e toda a década de 90, subindo de posto lentamente até se tornar o editor. Nessa função, ele conseguiu elevar a revista de volta ao seu auge. Mas o trabalho acabou se tornando muito estressante. Em 2000, ele deixou a revista (exceto pela lista Pot 40 da contracapa que ele ainda escreve, uma variação das listas dos 99 e 40 melhores da antiga “Punk”). “Eu havia economizado um bocado de dinheiro,” ele diz “e decidi tentar trazer a revista “Punk” de volta .”
Os resultados foram vários; a resposta, pior. Alguns o acusaram da tentativa descarada de lucrar sobre a nova popularidade do Punk Rock; outros, de tentar reviver sua juventude perdida. Ambas acusações continham um pouco de verdade. Como a maioria das reuniões, o relançamento de “Punk” foi absurdo e um pouco constrangedor, mas não particularmente cínico ou sem motivo. De qualquer forma, Holmstrom e a renovada “Punk” logo estavam sujeitos ao antigo infortúnio pelo qual eles sempre passaram. Terroristas explodiram seu escritório no centro. Os distribuidores os roubaram. E um editor havia desaparecido.
“Eu tentei fazê-la do meu próprio apartamento,” ele diz, “mas aquilo quase me matou. Eu moro no quarto andar, e quando você tem que subir e descer pelas escadas carregando caixas de revistas, aí é demais, especialmente na minha idade. E as filas no Correio, e a caminhada de quatro quarteirões para chegar lá. Qualquer um pode fazer um pequeno fanzine de dentro de seu apartamento, mas se for fazer 10.000 cópias, você precisa gastar grana em um escritório .” (Eu discordo educadamente, mas tenho a sorte de morar no segundo andar e a apenas dois quarteirões do Correio — embora não com um aluguel absurdamente barato de um apartamento para o qual fui morar em 1977, e com um cheque de adiantamento dos Ramones. Suspiro.)
E o que Holmstrom anda aprontando hoje? Não o que vocês estão tentando adivinhar. Ele está muito satisfeito com um contrato de licenciamento que acabou de fazer com uma empresa japonesa de moda.
“Eles criaram uma linha maluca de roupas,” ele diz, um pouco entusiasmado. “É material de alta qualidade, tipo com as letras ‘Punk’ em lantejoulas sobre uma blusa feminina de tecido caro. Calças de menininhas com o editorial antidisco da “Punk” #1 e ‘John Holmstrom’ impresso na parte interna. Eles têm casacos e gorros com o logotipo “Punk”. Eu sou uma grande marca no Japão hoje! Eles até curtem alguns dos meus personagens de “Domeland”. Eles querem fabricar brinquedos e miniaturas de todo esse material. Isso catapultou minha criatividade a uma nova direção. Estou preparando o lançamento desse material nos EUA, e acho que irá vender bem.”
Veremos.
Com um brilho no olhar, ele explica: “É como uma recompensa por toda a merda que tive que aturar durante esses anos.”
Acesse o blog John de Holmstrom em www.johnholmstrom.com
E a página da revista “Punk” em www.punkmagazine.com